“Eu gostava do corte da cana, foi o único emprego que eu tive. Antigamente aqui não tinha serviço, era só o trabalho na Usina”.

CARMELA OSTANELO

Entrevista

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Nasci em Sousas, em dezoito de maio de mil novecentos e trinta e oito e vim para Cosmópolis com doze anos. Na época, meu pai nos levava na Rhodia, onde moramos por um tempo, depois de irmos à escola na parte da manhã nós íamos amarrar cana na parte da tarde. Naquele tempo amarrava a cana, ela não era cortada solta nem por monte como tem sido feito recentemente.

Nós ficávamos do resto do dia até à tarde. Comecei efetivamente como cortadora de cana com dezenove anos aqui na Usina Ester, mas a usina não dava o corte de cana para as mulheres que os maridos não eram fichados. Exceto no fim da safra, em que sobrava bastante serviço, então como iríamos ganhar mais, corríamos pra usina.

Costumávamos acordar às quatro horas da manhã para fazer a comida, arrumar a marmita, o café da tarde e enchíamos o garrafão de água para levar. Seis horas nós todos começávamos a trabalhar. Largávamos às quatro da tarde. Tinha uma hora de almoço e meia hora de café.

Tínhamos que levar o podão e a lima para amolar o podão, o enxadão pra arrancar praga. Nos últimos anos a própria Usina fornecia as ferramentas e não precisávamos levar. Vestíamos uma calça comprida, uma saia, uma blusa de manga e colocávamos o mangote, que cobria só os braços para não queimá-los. Para proteção adicional a Usina fornecia luvas, que parecia feita de couro, meio cinzenta, mas nunca usei, eu não conseguia cortar a cana com a luva. A luva me atrapalhava, enrolava na mão. Eles davam aquela luva e a perneira para não cortarmos a perna, que você amarrava em cima e amarrava atrás pegando do joelho pra baixo. O podão ia na cesta, uma cesta de lata em que fechávamos a comida, com o caldeirão de lado, o pão em cima e botava o podão em cima para não machucar.

O corte da cana tinha que ser feito bem rente ao chão e não podia jogar gomo da cana fora quando batia o podão na parte de cima, porque tinha que aproveitar bem toda a cana. O pagamento era feito por quantidade de cana cortada. Quando era amarrada, era em feixes.

Cana de quatro cortes, você colocava dezoito no feixe, cana nova colocava-se quinze. Amarrava em feixe, contava e jogava o feixe no caminhão. Antes disso, um contador conferia a quantidade com você contatando na sua frente e um fiscal olhando se você cortava baixo, se você cortava baixo, se você jogava a ponta fora.

Os fiscais ensinavam como fazer os cortes, como tinha que limpar as pontas que caiam entre as eiras, para deixar limpinho para a máquina não pegar e levar pra Usina. Depois começamos a cortar esparramado, não me lembro exatamente a data, fazendo eira, que era tombar ela no chão. Daí media com o compasso, com o compasso de dois metros, e media. Aí nós ganhávamos por metro. Quando era cana boa cortava bastante, quando era cana torta cortava menos, mas pesava mais também.

Houve uma vez, em eu e minha colega cortamos juntas setecentos metros. Aí o Paulo Junior, um dos donos da Usina, achou que era muita cana para duas mulheres, ele pegou o contador e foi medir de novo. Isso aconteceu no Tabajara, logo que a usina comprou. Eu trabalhei também para o antigo dono do Tabajara, o senhor Antonio Batistela, quando a Usina não me dava corte de cana ainda, eu trabalhava para eles.

Depois que tombávamos a cana nas eiras, amontoávamos a máquina juntava. O Sr. Antonio Grassi, que era um dos administradores, pedia para juntar a cana em monte, mas queria o monte certo, pra máquina pegar e não arrastar, pois a máquina tinha dois garfos por baixo que ela arrastava.

O monte tinha que ser grande e as canas compridas o suficiente para a máquina pegar, mas às vezes a cana não dava e escapava. Nós cortávamos só na safra, durante seis meses. E nos outros seis meses a gente carpia, cortava cana para plantar muda e quando era para plantar precisava cortar a cana crua com a palha no chão e ficava mais difícil para cortar. O calor sobia nas pernas e vinha até o joelho. Era duro, hein! Mas até que eu sentia o Sol mais fraco lá na roça do que aqui no asfalto. Aqui em casa eu sinto o Sol mais quente. Na roça e na terra dava calor, mas acostumava, sentia que não era tão quente, sentia que era mais fresco do que em casa.

Com toda esta repetição de movimentos do corte doía todo o corpo, dizíamos que era que nem os atletas em treinamento. Doía toda a perna e as costas, mas depois que acostumávamos, aí nós íamos embora. Nós ficávamos em quarenta pessoas, todas acostumadas com o serviço. Fazíamos os seis meses e nem percebíamos.

O ganho do cortador de cana era de acordo com o que seu trabalho rendia. Quanto mais você trabalhava, mais você ganhava e sempre as mulheres casadas ganhavam mais. Porque os meninos e as moças não tinham muito interesse. Sentavam na hora do almoço, almoçavam folgados e nós não. Nós almoçávamos e já levantávamos. Não chegávamos a tirar uma hora de almoço. Para ganhar tempo, tinham cortadores que pegava o ônibus as quatro ou cinco horas da manhã, e já comia o almoço no trajeto. Se o ônibus ia muito lotado e não dava para comer, alguns desciam depressa antes de dar horário para entrar. Comia metade porque era quente, depois na hora do almoço ela já esfriava.

Quando Terminava o trabalho do dia e ia embora pra casa, eu ainda tinha que fazer os serviços domésticos, limpar a casa, fazer janta e preparar mistura pro outro dia de manhã. Adiantar as coisas pro outro dia às quatro da manhã. Naquele tempo não tinha água encanada, era tudo tirado do poço todo o dia, puxando naquela lata de vinte litros, no braço, para lavar a roupa, fazer a mistura, tomar banho.

Edição de texto por Heyk Pimenta