“Ouvindo o eco do salão dos brancos”.

João e Ana Bocaíuva

Entrevista

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João - Sempre morei em Cosmópolis. Nasci na Usina Ester e lá morei, foi muito bom. Naquele tempo para arrumar serviço era fácil. A gente jogava bola no pasto, tínhamos 16 anos, o administrador passava e a gente gritava: “Seu Frederico, arruma serviço para mim?”, se ele balançasse a cabeça dizendo que sim, depois era só ir pro escritório da Usina.

Quando já estávamos dentro da Usina até podíamos ir para outras funções e cargos, mas era na roça que se começava. E era bom se apresentar já com a enxada amolada. Eram grupos entre trinta e quarenta trabalhadores, todos jovens. A cana ia crescendo, chegava a safra de açúcar,acontecia a queima, o corte,e quando terminava a gente voltava pra roça.

Só com 18 anos é que eles nos escolhiam paratrabalhar dentro da fábrica. Quando surgia um serviço dentro da Usina, ia um caminhão pra roça, a gente via o caminhão chegando e pensava “Será que a gente vai sair daqui?”.

Eles desciam e falavam “fulano, ciclano”, nem sabíamos pra onde iam nos levar. Quando terminava esse serviço, a gente voltava pra roça. Com o tempo, a gente ficava na Usina de vez.Tinha que trabalhar direito. A gente saía da roça para a fábrica e se eles gostassem do trabalho nos fichavam, porque sabiam que a gente mal chegava e já resolvia o serviço. A vida era boa, havia vizinhos bons, os colegas de brincadeira, a escola. Eu morava em frente a uma escolinha da Usina, indo para o Jaguari.

A cerca da escola era na frente de casa e pouco depois era a linha do trem.Estudamos ali por três anos e o quarto ano viemos fazer aqui em Cosmópolis, e para pegar o diploma, estudamos mais um ano ainda. Onde era a estrada de terra que vinha da Usina para Cosmópolis, tinha a famosa árvore que chora, famosa porque a turma falava dela, era diferente. Tinha uma época em que era obrigado a passar por ali, e ela pingava na gente, chorava.Da Usina até perto do Jaguaria gente vinha a pé, aquele monte de aluno, colega, até a granja, uma sessão grande que tinha na Usina.Saía meio-dia,chegava só duas horas da tarde. Era assim, era gostoso. Quando a gente ia embora da escola, chegava em casa, jogava tudo e ia pro poção. Lá tinha o rio, todo mundo tirava a roupa correndo para nadar.

Eu não nadava, nunca nadei, mas meus colegas nadavam. Se eu caísse na água, caía deitado de barriga para cima, iguala um peixe morto.

Tinha alguma inocência ainda, as mulheres da colônia falavam para os filhos “Você vai ao rio nadar? Se você morrer afogado, na hora em que chegar, eu te mato”. E como elas iam matar alguém já morto?! Todos os vizinhos tinham alguma hortinha ou criação. Meu pai criava porco, outro vizinho também. Quando matavama gente ia pedir um pouco de carne, e depois quando matavam porco lá em casa, a gente retribuía, ia lá levar algum corte pra eles, ou cozido já, toucinho. Os animais viviam na rua, cabra, porco, soltos...Tratavam deles de manhã,depois soltavam na rua e os animais sumiam. À tarde eles voltavam, cada um vinha pra casa de seu dono.O conhecimento com os vizinhos era muito bom, aconselhavam a gente, estavam sempre junto conosco, se bem que eu nunca dei trabalho para os meus pais. Ana - Tinha um padeiro que levava pão para a Usina Ester. Lembro que os meus pais deixavam na porta uma sacolinha de pano, um “picuazinho”, como se dizia.

O padeiro deixava os pães lá, o mês inteiro. Quando era o fim de mês,meu pai recebia, somava a caderneta, colocava o valor e pendurava na porta – o padeiro sempre passava 4h30, 5h da manhã – e ninguém mexia em nada de ninguém. E hoje eu vejo, nossa, quanta diferença de uma geração para a outra.

João - Tinha uma turminha da música, foi daí que aprendi o pandeiro, não foi fazendo aula.Um tio tocava violão, um tocava cavaquinho, outro bateria, sanfona, e eram convidados para as festas das colônias e nos aniversários, eu sempre os acompanhava. Tinha um que tocava pandeiro, mas ele gostava mesmo de dançar, então deixava o pandeiro na minha mão, eu segurava, e dançando ele me ensinava como fazia, dava sinal de jóia de longe, pra mostrar que estava bom...

Terminava a música, ele vinha e dizia “tá bom, continua assim”, mas era só para eu gostar e ele continuar dançando. Foi assim que aprendi, de tanto segurar para meu tio. Ele vinha quando terminava a música e falava: você faz isso e isso, e ia correndo dançar com a dama dele. Então tive que aprender na marra, fui obrigado, e aprendi. Ninguém me ensinou.Hoje muitos pedem para eu ensinar, mas aprendi do meu jeito.

Nesse tempo todo aprendi muitos ritmos, muitos tipos de música, baião(tocando), tem guarânia, marcha (tocando), o bolero (tocando), valsa (tocando), e a valsa tem uma diferença, a normal é assim (toca)... Samba... É isso aí! (Tocando samba. Canta um trecho da música de Martinho Da Vila, “Devagar, devagarinho”). Tenho três pandeiros, posso amplificar os três na caixa acústica. Coma caixa, a gente tem retorno, escuta o que está tocando, porque quando toco, a turma está ouvindo, mas não me ouço. Quero me ouvir tocar também. Isso daí eu gosto.

Ana - Eu achava interessante o Baile da Usina, apesar de serem dois bailes,na verdade. Um pros brancos e, no salão do lado, outro pros pretos. Às vezes eu não aceitava muito, já tinha uns dez anos de idade, e pensava o porquê dessa separação, achava meio ridículo até! Ao mesmo tempo gostava do baile. A gente morava perto do salão e às vezes não ia com nossos pais, mas ficava em casa ouvindo as músicas.

O interessante era que o conjunto musical tocava no salão dos brancos,onde as pessoas dançavam, e no lado dos pretos vinha só o eco do som do outro salão. Uns anos depois, mais mocinha, não havia mais baile separado. Era tudo misturado, todo mundo junto. Lembro os meus pais falando dessa diferença, era uma coisa interessante.

Tenho saudades da Usina, agora a gente passa lá e está tudo acabado, as casas todas desmanchadas. Sinto falta do nosso lugar, as colônias eram muito bonitas, era lindo! Os rios eram muito bonitos. A parte ruim é que as pessoas iam para o poção e muita gente morreu lá. Em frente à minha casa passava o rio, e eu cheguei a presenciar um afogado sendo levado pelo pela correnteza, isso me deixava muito triste. Meu pai sempre foi da Usina, nasceu lá. Minha mãe não gostava muito da Usina porque ela era de Artur Nogueira, então ela estranhava muito. Cheguei a cortar cana, no Tabajara, na Usina Ester. Depois, quando mudei para cá, fui estudar mais um pouquinho, fiz enfermagem e fui trabalhar no Gepan, onde fui inspetora de alunos e acabei me aposentando.

A gente ia muito no cinema, onde hoje é a loja Seller, e passava muito Mazzaropi. Na Usina Ester também passava filme ao ar livre, tinha gente que levava cadeira, banquinho. Na época eu ia com a minha mãe, e além do Mazzaropi, tinha o Tarzan, comédias,filmes de aventura... Sabe?Eu gostava, adorava, levava pipoca... A gente se divertia!E as paqueras, não cheguei a frequentar, era no jardim, no coreto. E ali ficavam todos os jovens descendo, subindo...

(João toca samba composto por ele. Canta a marchinha “Abobrinha”, de autoria própria, com o pandeiro e depois à capela) São 44 anos de casados e uma filha, ela é maravilhosa, é uma joia que tenho na vida, que Deus me deu. Tenho dois netos lindos, então me considero uma pessoa muito feliz.

João - E nunca nós tivemos uma questão...

Ana - Se ele tá falando! Ele sempre foi um homem muito bom.

João - Quando vocês vão vir de novo para eu pegar na mão dela?

Ana - Eu te amo...

João - Eu também

Edição de texto por Heyk Pimenta